domingo, 22 de abril de 2012

Experiências Místicas

Mente Irredutível:
em busca de definições científicas sobre o tema de Experiências Místicas.

Tema discutido numa palestra realizada dia 17 de Abril, no grupo de pesquisa do PROSER (Programa Saúde, Espiritualidade e Religiosidade) no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FM-USP.

Antes de falarmos sobre experiências místicas, precisamos entender o que é Misticismo.
Em sua origem grega, a palavra misticismo significa "esconder".  Assim, misticismo adquire o tom de algo secreto, para poucos. Dizemos que um assunto é "místico" quando queremos dar uma conotação de algo misterioso, importante, mas inacessível a pessoas não inciadas.
Isto se deve ao fato de que durante centenas de anos, a prática do misticismo estava restrita a quem se dedicava exclusivamente a alguma religião. O místico era o mais religioso dos religiosos, o que exercia a prática religiosa com maior devoção. Encontramos vários místicos em diversas religiões: catolicismo, budismo, taoísmo, sufismo, judaísmo, entre outras.
Atualmente, Misticismo não é mais uma prática considerada exclusivamente religiosa e encontramos místicos sem religião como Eckhart Tolle, por exemplo.
Num âmbito mais científico, o estudo do Misticismo e do que são as experiências místicas tem se mostrado importante, principalmente quando associados a estados não patológicos. Em geral, o meio da saúde estudou apenas ocorrências de experiências místicas em pessoas com distúrbios mentais e criou um viés negativo, que associou estas experiências a transtornos psiquiátricos. Mas ao estudarmos mais profundamente as religiões e os fundadores das principais religiões, sem falar de outros menos conhecidos, percebemos que existe um rico universo a ser explorado sobre este tema. 

Em seu livro Varieties of Religious Experience de 1902, William James, considerado um dos pais da Psicologia, diz:

“Eu não falo do crente religioso comum.[...][pois,] sua religião foi feita para ele por outros, comunicada a ele através da tradição, restrita a formas fixas por imitação, e retida pelo hábito.”

Apesar de ser um pouco dura, esta declaração deixa bem claro que existem diferenças importantes entre praticantes religiosos. Atualmente se faz uma diferenciação entre a religiosidade intrínseca e a religiosidade extrínseca, mas isso fica para um próximo artigo.
Voltando ao assunto, podemos refletir que em 1902, as diferenças entre espiritualidade e religiosidade ainda não tinham sido consideradas e hoje percebemos que a declaração de James se refere à pessoas com uma prática espiritual profunda, intrínseca, que vai além da religião professada.

As experiências místicas (EM) estão sendo definidas no meio acadêmico como experiências transformadoras do ser humano, com resultados muito positivos.
Num artigo encontrado online na Enciclopédia de Filosofia da Universidade de Stanford, EUA, encontramos duas grandes definições sobre experiências mísiticas (EM):

1.     Num âmbito geral, amplo, encontramos que as EM são experiências tidas como super ou sub sensorial-perceptiva que traz conhecimento de realidades ou estado-das-coisas, que não seria acessível por meio da percepção ordinária dos sentidos ou da introspecção comum.
a.     Super sensorial-perceptiva: experiências onde há uma ampliação dos sentidos e da percepção, como pode acontecer quando observamos um pôr do Sol. Algo nos toca profundamente e percebemos a imensidão do Universo, nos sentimos conectados com uma força maior, etc.
b.     Sub sensorial-perceptiva: sem conteúdo fenomenológico ou conceitual. Algumas experiências com meditação budista, onde o foco está no realização do vazio.

2.     Num âmbito mais restrito, encontramos que as EM são experiências com uma caracterísitca unitiva tida como super ou sub sensorial-perceptiva que traz conhecimento de realidades ou estado-das-coisas, que não seria acessível por meio da percepção ordinária dos sentidos ou da introspecção comum.
a.     Experiência unitiva: erradicação ou diminuição da ênfase na multiplicidade das coisas, onde o significado cognitivo é condenado a “mentir” exatamente sobre esta característica fenomenológica. Ex.: o indivíduo perde a noção de Eu individual e torna-se um com o Universo.

Também podemos encontrar em Kelly et al, (2007) uma classificação das EM em extrovertidas ou introvertidas, baseada em Walter Stace:
1.     Extrovertidas: acontece durante atividades. O indivíduo não perde a noção espaço-tempo.
2.     Introvertidas: acontece em estados meditativos. Transformação da noção do Eu, contato com uma dimensão transcendente – Unidade.

Além destas, existem definições mais específicas sobre as EM, que são:
 
  1. Objetividade e sensação de realidade 
  2. Inefável (difícil de explicar com palavras)
  3. Sentimentos de tranquilidade, calma (positivos) 
  4. Sensação de viver algo sagrado, solene (numinoso) 
  5. Característica paradoxal (cheio/vazio, etc) 
  6. Noética (traz conhecimento)
  7. Produzem elevação moral – constante autorreflexão e auto-observação


Referências:

James, W. (1902/1987) Writings 1902-1910: Varieties of Religious Experience. New York: The Library of America.
Kelly, E. F.; KELLY, E. W.; GROSSO, M.; CRABTREE, A.; GAULD, A.; GREYSON, B. (2007) Irreducible Mind: Toward a Psycholoy for the 21st Century. Lanham: Rowman & Littlefield.
Online:
Mysticism (Stanford Encyclopedia of Philosophy) http://plato.stanford.edu/entries/mysticism