domingo, 17 de julho de 2011

Normose: a patologia da normalidade

Normose é um conceito novo, trazido por alguns autores da Psicologia Transpessoal, que tem ganhado espaço nos meios terapêuticos. É um conceito que lida com a idéia do que é considerado "ser normal" numa determinada sociedade ou grupo e do quanto este comportamento causa sofrimento ou não.
Todos nós queremos e precisamos estar inseridos num grupo social e todo grupo tem suas regras, que são o resultado de um 'acordo' entre os integrantes desse grupo. Porém, algumas destas regras podem gerar atitudes que causam profundo sofrimento no outro ou mesmo em quem as pratica.
Vejamos o exemplo do hábito de fumar. Durante muito tempo foi considerado normal fumar - e até mesmo símbolo de status entre nossa sociedade. Hoje em dia, fumar é visto com censura e todos conhecem bem as pressões atuais contra os fumantes. Os fumantes são até vistos como 'fracos'... Mas o quê de fato mudou ? Fumar sempre fez mal à saúde...
Outro hábito 'normal' que também gera um grau de sofrimento considerável é a bebedeira do final de semana - ir para uma balada e não beber é completamente fora do normal...
Então, quando pensamos nestas atitudes comuns à todos nós, começamos a perceber que a normose é muito mais difundida em nossa sociedade do que parece. Nas palavras de Pierre Weil, no livro Normose, podemos ler que:

"A normose pode ser definida como um conjunto de normas, conceitos, valores, estereótipos, hábitos de pensar ou de agir, que são aprovados por consenso ou pela maioria de uma determinada sociedade e que provocam sofrimento, doença e morte."

Ainda nas palavras de Pierre,

"Há uma crença bastante enraizada segundo a qual tudo o que a maioria das pessoas sente, acredita ou faz, deve ser considerado normal."

Existem inúmeras formas de normose e todos sofremos dela em maior ou menor grau - temos que ter um carro bacana, um emprego bacana, uma casa bacana, diversão no final de semana, roupas novas, uma mulher maravilhosa ou um homem bem sucedido... e por aí vai.
O conceito de normose esbarra na busca pela felicidade - ter ou ser ? A necessidade de aceitação, reconhecimento e acolhimento muitas vezes faz com que o desejo pessoal seja sacrificado e então nos rendemos ao padrão, à normose.
Quantas vezes não ouvimos pessoas próximas dizerem que queriam largar tudo e mudar de vida ?
O que este cansaço nos diz ?
Mas o que gostaria de chamar à atenção é a normose dos hábitos e atitudes que ferem o outro, ferem entes queridos, ferem ao próprio normótico.
Jean-Yves Leloup, outro autor do livro supracitado, nos lembra que "estar bem adaptado a uma sociedade doente não é sinal de saúde".

Alguns tipos de normose que devemos refletir sobre são:
A normose da fofoca;
A normose da estética;
A normose do sucesso;
A normose do consumismo;
A normose da alimentação prazeirosa;
A normose da internet;

E a lista pode continuar...

"A característica comum a todas as formas de normose é seu caráter automático e inconsciente."
(Jean-Yves Leloup)

Assim, como curar a nomose ?

Uma coisa precisa ficar bem clara: gostar de boa comida, tomar um bebida numa festa ou jantar, vestir-se com prazer e muitas outras atitudes não são normóticas em si. O problema está na motivação interna e nos objetivos que são esperados destas ações.
Como foi dito acima, a necessidade de ser aceito, de ser igual, é um dos maiores motivadores de ações normóticas. E junto com esta necessidade caminha o medo de sermos autênticos... e sermos rejeitados.
De novo, vemos que o autoconhecimento e a autoaceitação são ferramentas essenciais para a cura da normose.
No momento em que somos verdadeiros, não somos normóticos...
E a reflexão que fica é :

Ousar ir além ou se conformar ?


Referência:
WEIL, P; LELOUP, JY; CREMA, R. (2003) Normose, a patologia da normalidade. Ed. Verus.


Também podemos ler sobre normose no livro de Abraham Maslow "Toward a Psychology of Being". Ed. John Wiley & Sons, 1999.

2 comentários:

  1. Sou cético quanto a enunciação de "novas patologias", dado o contexto bastante medicalizado e psicologizado em que habitamos. Acredito que o conceito de normose deve ser mais lapidado, pois corre o risco de perder sua pertinência. Vai acabar sendo deslocado de seu conteúdo e virando um chavão, meio sério, meio jocoso, que fica circulando por ai,nas conversas cotidianas e na mídia, tal como "neurótico", "bipolar", "depressivo", "proativo", "resiliente" e tantos outros que, esvaziados de seu significado, se prestam mais a catalogar sujeitos do que analisar, questionar ou propor formas de intervenção em determinada situação existencial e social.
    Pouco contribuindo, enfim, para cuidar do sofrimento psíquico.

    Marcelo

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    1. Oi Marcelo,
      Obrigada por sua colocação. Concordo que existe a criaçnao de chavões quando não se discute um tema mais a fundo. Por isso, acho importante o diálogo e o esclarescimento. Normose ainda não é considerada oficialmente uma nova patologia, mas é sim, uma proposta de revermos nossos hábitos e descobrir o que é sadio daquilo que não é. Termos como "neurótico", "bipolar" e "depressivo" não deveriam ser chavões, pois são diagnósticos clínicos. Foram banalizados e hoje, pela falta de conhecimento, temos grande preconceito e mal uso desses termos. Mais uma vez, informação correta é a solução...

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