domingo, 24 de julho de 2011

Meditação e Pintura Sagrada Tibetana


Tara Verde (Close) by Tiffani H. Gyatso
A pintura sagrada tibetana conhecida como Thangka é uma expressão artística que se inspirou na sabedoria de tradições budistas e hinduístas. As pinturas visam representar divindades arquetípicas que promovem a liberação de nosso potencial máximo, quando usadas na prática da meditação.
Os aspectos divinos representados nas pinturas sagradas devem ressoar no interior do meditante para que estas qualidades se manifestem na personalidade, auxiliando o desenvolvimento espiritual.
Uma thangka representa "a forma ideal de uma divindade do panteão budista e pode transmitir a presença de um aspecto do Buda, de quem é a personificação". (1)
A contemplação das formas divinas e diabólicas representadas nas thangkas nos preparam para uma vida mais plena, assim como para o período pós-morte, quando os estados de consciência representados por estas divindades se manifestam de forma espontânea na dimensão chamada pelos budistas de Bardo.
Quando não entramos em contato com nosso lado sombrio, estas forças se manifestam em nossa vida em forma de diferentes doenças. Mas ao integrarmos estas forças em nossa consciência de maneira amorosa e com compreensão, nos convertemos em seres que se autoaceitam e aceitam aos demais, e somos capazes de transformar estas energias sombrias em forças criativas.

"Quando não é visto como um mero trabalho manual, o preparo de uma thangka pode ser em si mesmo parte de um ritual religioso e da prática espiritual."(1)

Rascunho by Tiffani H. Gyatso
Como representação de uma divindade, as formas da thangka seguem regras pré-estabelecidas que não podem ser alteradas pela expressão artística individual, por isso, é necessário grande dedicação e muito tempo de treino para se atingir o grau de pintor de thangkas.


Existem 6 temas gerais para a pintura de thangkas:

  1. Seres iluminados: Budas, Bodhisattvas e gurus.
  2. Yidams: representações pessoais do mentor espiritual.
  3. Dharmapalas: guardiões da doutrina e do local da prática.
  4. Ilustrações da doutrina: representações simbólicas de temas budistas. Ex.: roda da vida.
  5. Mandalas: representação simbólica de forças cósmicas.
  6. Yantras: um modelo geométrico representando uma divindade de forma abstrata.
De acordo com a literatura védica, o Universo é uma expressão da consciência pura, que primeiro se manifesta como um som e depois assume uma forma. Por isso, as formas representadas em mandalas, em yantras e nas thangkas em geral, possuem uma força primordial que pode nos proporcionar uma vivência espiritual rica e trazer mais sabedoria para nossa vidas.


Buda by Tiffani H. Gyatso

Em Setembro teremos um workshop com a artista de Thangka, Tiffani H. Gyatso, que estudou por 3 anos na escola Norbulingka em Dharamsala na Índia, onde ataulamente vive S.S. Dalai Lama. Confira na página de palestras as datas e outras informações.

Referências:
1. Dudka, Nick. (2005). A prática da meditação tibetana: imagens que estimulam a compaixão, a descoberta e a sabedoria. Ed. Pensamento, São Paulo.
2. Shrestha, Romio. (2006). Galeria Celestial. Ed. Taschen, Alemanha.

domingo, 17 de julho de 2011

Normose: a patologia da normalidade

Normose é um conceito novo, trazido por alguns autores da Psicologia Transpessoal, que tem ganhado espaço nos meios terapêuticos. É um conceito que lida com a idéia do que é considerado "ser normal" numa determinada sociedade ou grupo e do quanto este comportamento causa sofrimento ou não.
Todos nós queremos e precisamos estar inseridos num grupo social e todo grupo tem suas regras, que são o resultado de um 'acordo' entre os integrantes desse grupo. Porém, algumas destas regras podem gerar atitudes que causam profundo sofrimento no outro ou mesmo em quem as pratica.
Vejamos o exemplo do hábito de fumar. Durante muito tempo foi considerado normal fumar - e até mesmo símbolo de status entre nossa sociedade. Hoje em dia, fumar é visto com censura e todos conhecem bem as pressões atuais contra os fumantes. Os fumantes são até vistos como 'fracos'... Mas o quê de fato mudou ? Fumar sempre fez mal à saúde...
Outro hábito 'normal' que também gera um grau de sofrimento considerável é a bebedeira do final de semana - ir para uma balada e não beber é completamente fora do normal...
Então, quando pensamos nestas atitudes comuns à todos nós, começamos a perceber que a normose é muito mais difundida em nossa sociedade do que parece. Nas palavras de Pierre Weil, no livro Normose, podemos ler que:

"A normose pode ser definida como um conjunto de normas, conceitos, valores, estereótipos, hábitos de pensar ou de agir, que são aprovados por consenso ou pela maioria de uma determinada sociedade e que provocam sofrimento, doença e morte."

Ainda nas palavras de Pierre,

"Há uma crença bastante enraizada segundo a qual tudo o que a maioria das pessoas sente, acredita ou faz, deve ser considerado normal."

Existem inúmeras formas de normose e todos sofremos dela em maior ou menor grau - temos que ter um carro bacana, um emprego bacana, uma casa bacana, diversão no final de semana, roupas novas, uma mulher maravilhosa ou um homem bem sucedido... e por aí vai.
O conceito de normose esbarra na busca pela felicidade - ter ou ser ? A necessidade de aceitação, reconhecimento e acolhimento muitas vezes faz com que o desejo pessoal seja sacrificado e então nos rendemos ao padrão, à normose.
Quantas vezes não ouvimos pessoas próximas dizerem que queriam largar tudo e mudar de vida ?
O que este cansaço nos diz ?
Mas o que gostaria de chamar à atenção é a normose dos hábitos e atitudes que ferem o outro, ferem entes queridos, ferem ao próprio normótico.
Jean-Yves Leloup, outro autor do livro supracitado, nos lembra que "estar bem adaptado a uma sociedade doente não é sinal de saúde".

Alguns tipos de normose que devemos refletir sobre são:
A normose da fofoca;
A normose da estética;
A normose do sucesso;
A normose do consumismo;
A normose da alimentação prazeirosa;
A normose da internet;

E a lista pode continuar...

"A característica comum a todas as formas de normose é seu caráter automático e inconsciente."
(Jean-Yves Leloup)

Assim, como curar a nomose ?

Uma coisa precisa ficar bem clara: gostar de boa comida, tomar um bebida numa festa ou jantar, vestir-se com prazer e muitas outras atitudes não são normóticas em si. O problema está na motivação interna e nos objetivos que são esperados destas ações.
Como foi dito acima, a necessidade de ser aceito, de ser igual, é um dos maiores motivadores de ações normóticas. E junto com esta necessidade caminha o medo de sermos autênticos... e sermos rejeitados.
De novo, vemos que o autoconhecimento e a autoaceitação são ferramentas essenciais para a cura da normose.
No momento em que somos verdadeiros, não somos normóticos...
E a reflexão que fica é :

Ousar ir além ou se conformar ?


Referência:
WEIL, P; LELOUP, JY; CREMA, R. (2003) Normose, a patologia da normalidade. Ed. Verus.


Também podemos ler sobre normose no livro de Abraham Maslow "Toward a Psychology of Being". Ed. John Wiley & Sons, 1999.