quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Sobre o medo e a plenitude

O medo é uma experiência universal. Até o menor dos insetos sente medo e reage a ele. Sentir medo ao encararmos o desconhecido não é algo ruim - é parte de estarmos vivos, algo que todos compartilhamos.
O medo é uma reação natural que nos move em direção à Verdade.
Quando nos comprometemos a estar presentes, tudo se torna mais vívido e claro: não há para onde escapar. Mas nosso medo é tão intenso, que vivemos em distração constante. Sentar em silêncio é algo que dá muito medo !
Mas a meditação é um convite a estarmos presentes, sentirmos nossos corpos, encararmos nossos pensamentos, observarmos nossas emoções.
E então podemos descobrir a impermanência !
Nada permanece igual por muito tempo - tudo está constantemente mudando. Parece óbvio quando dizemos isso apenas da boca pra fora, mas vivenciar a impermanência é um precioso aprendizado. Transforma nossas vidas. Nos liberta... do medo.
Quando começamos uma jornada de autoconhecimento, uma jornada espiritual, costumamos ter muitas expectativas. Ninguém inicia um caminho espiritual pensando em quanto medo irá enfrentar.
Mas a verdade é que o medo que encontraremos não é algo novo - ele sempre esteve aqui, juntinho de nós. A questão é que antes, nós estávamos em constante distração e por isso não sentíamos a dor do medo.

O caminho de autoconhecimento se inicia com a pausa e se perpetua com a auto-observação.

A pausa é a meditação e a auto-observação é a atenção plena com que olhamos para dentro, para nós mesmos e tudo aquilo que nos constitui - medos, dores, alegrias, memórias, desejos, etc.
Tornar-se amigo do seu próprio medo, conhecer seus demônios internos... Mas não com a intenção de derrotá-los, mas sim de perceber que são ilusões.
O aprendizado que nasce de nossas autodescobertas nos motiva a dar mais um passo. Pois cada vez vamos ficando mais leves, mais livres, mais felizes.
Este é o caminho para a plenitude.


Referência: Chodron, Pema. (2002) When Things Fall Apart.  New York: Shambala.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Emergência Espiritual


Muito se fala da jornada espiritual e dos seus benefícios. Observa-se mesmo uma certa ingenuidade e minimização do caminho espiritual, muitas vezes sendo visto como fuga da realidade. Nada, no entanto, pode estar mais equivocado. 
A jornada espiritual de autodesenvolvimento exige comprometimento e acima de tudo coragem. Coragem para lidar com os aspectos internos que não são bemvindos – nossa sombra.
Conforme mergulhamos na consciência profunda, elementos adormecidos e padrões de comportamento são trazidos à superfície. O reconhecimento é o início do processo de transformação e isso nem sempre é fácil, ou agradável.
Dependendo da intensidade, pode-se mesmo entrar em um processo de crise pessoal, que tem recebido o nome de crise de emergência espiritual nos meios acadêmicos. Este termo foi cunhado pelo casal Christina Grof e Stanislav Grof e ainda está sendo discutido em meios científicos, chegando a aparecer alguma coisa a respeito na edição revisada do DSM-IV TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais - Texto Revisado), sob o código V62.89 - Religious or Spiritual Problem (APA, 2000).
É importante diferenciar a crise da evolução gradual: a emergência da crise. Quando começamos uma jornada de crescimento, este processo pode se dar de inúmeras formas, o mais comum sendo a forma gradativa. Aos poucos, novas questões vão sendo trabalhadas pelo indivíduo e sua consciência vai expandindo de uma forma que é razoavelmente fácil de lidar. Já a crise, é aquela expansão de consciência rápida, que traz um desafio para a mente e muitas vezes é difícil de lidar sozinho.
A crise de emergência espiritual é um processo intenso e pode muitas vezes ser confundido com Depressão ou até mesmo estados psicóticos, dependendo de sua intensidade. Ao ser erroneamente diagnosticada, o indivíduo inicia um tratamento inadequado, muitas vezes através de medicamentos pesados, que acaba levando a um quadro de dependência desses medicamentos e a um empobrecimento da personalidade.

"O conceito de emergência espiritual integra descobertas de muitas disciplinas, incluindo-se entre elas a psiquiatria clínica e experimental, a moderna pesquisa da consciência, as psicoterapias experienciais, os estudos antropológicos, a parapsicologia, a tanatologia, a religião comparada e a mitologia. As observações em todos esses campos sugere de modo consistente que as emergências espirituais têm um potencial positivo, não devendo ser confundidas com enfermidades de causa biológica que precisam de tratamento médico."
(Grof & Grof, 1995)

Os critérios que separam a crise de emergência espiritual de outros transtornos psiquiátricos ainda estão sendo definidos e é preciso cuidado. Toda situação complexa do ser humano merece atenção especial, livre de preconceitos.
Problemas religiosos envolvem conflitos sobre crenças, valores e práticas relacionadas a uma instituição. Problemas espirituais se relacionam mais com os conflitos do indivíduo com uma força transcendente, um poder maior que não está necessariamente relacionado com uma religião.
Para entender mais sobre as diferenças entre religiosidade e espiritualidade, veja texto do blog "Espiritualidade e Saúde" de Outubro de 2010.

Para ler mais sobre o tema, consulte:

Grof, Stanislav; Grof, Christina. (1995) Emergência Espiritual: Crise e Transformação Espiritual. São Paulo: Ed. Pensamento.
Lukoff, David. (1998) From Spiritual Emergency to Spiritual Problem_DSM-IV. Journal of Humanistic Psychology, 38(2), 21-50.
Bradford, Kenneth G. (2010) Fundamental Flaws of the DSM: Re-Envisioning Diagnosis. Journal of Humanistic Psychology, no prelo.

sábado, 20 de agosto de 2011

Uma reflexão

Nos momentos difíceis da vida, costumamos buscar apoio em amigos, família, pessoas que gostamos e que sentimos que se importam conosco.
Mas quantas vezes buscamos a nós mesmos nesses momentos ?
Buscar a si mesmo seria encarar e reconhecer os próprios sentimentos sem tentar se livrar deles de forma desesperada.
Em geral, quando tentamos nos livrar muito rápido de um sentimento incômodo, nos arrependemos das ações que fazemos.
Desenvolver a reflexão é uma forma de se acostumar com os sentimentos que temos, sejam eles agradáveis ou não.
Buscar não gerar desejo pelos sentimentos agradáveis ou aversão pelos desagradáveis é um aprendizado espiritual.
Nossa vida oscila constantemente entre fases boas e fases ruins; dias bons e dias ruins; momentos bons e momentos ruins. O fim dessa balança está no desapego e no viver o momento presente.
A cada dia temos muitas oportunidades para nos abrir à vida ou nos fechar em nossas dores.
Quando aproveitamos o momento, mesmo ele sendo desagradável, podemos aprender a lição contida na experiência e nos mover adiante na vida.
Ao pensarmos que encontramos nosso limite, a vida na verdade está nos convidando a crescer, a ir além.
Muitos apenas geram sentimentos de ódio pela situação e tentam de tudo para que nunca mais aconteça tal situação. O medo do medo é a maior ilusão que podemos criar e a mais paralizadora.
É a própria vivência da morte, enquanto se vive.
Existem inúmeras histórias nas livrarias, sobre a superação dos medos e sobre as recompensas que essa atitude traz. Lindas histórias de morte e renascimento.
Procure em sua vida aquilo que precisa ser transformado e não tenha medo de sentir.
Busque ajuda se necessário, mas também busque ser seu próprio apoio. Não falo de autosuficiência - mas de estar para você da mesma forma que você espera que alguém esteja.
Ouse ir além dos seus limites.
Desafie suas crenças.
Questione suas certezas.

Não tente anestesiar o incômodo, lançando-se em vícios normóticos.
A definição de vício é tudo aquilo que fazemos e sentimos que não temos força para párar de fazer - sejam drogas, seja a bebida, o cigarro, o chocolate, o doce... sejam as compras, a televisão, a balada, etc, etc.

Observe sua vida e perceba o que você já tem.
Perceba suas características e não classifique em qualidades ou defeitos.
Entre no silêncio interior.
Descubra o Ser que você é internamente.
Sinta...
A vida pulsa dentro de você.

domingo, 24 de julho de 2011

Meditação e Pintura Sagrada Tibetana


Tara Verde (Close) by Tiffani H. Gyatso
A pintura sagrada tibetana conhecida como Thangka é uma expressão artística que se inspirou na sabedoria de tradições budistas e hinduístas. As pinturas visam representar divindades arquetípicas que promovem a liberação de nosso potencial máximo, quando usadas na prática da meditação.
Os aspectos divinos representados nas pinturas sagradas devem ressoar no interior do meditante para que estas qualidades se manifestem na personalidade, auxiliando o desenvolvimento espiritual.
Uma thangka representa "a forma ideal de uma divindade do panteão budista e pode transmitir a presença de um aspecto do Buda, de quem é a personificação". (1)
A contemplação das formas divinas e diabólicas representadas nas thangkas nos preparam para uma vida mais plena, assim como para o período pós-morte, quando os estados de consciência representados por estas divindades se manifestam de forma espontânea na dimensão chamada pelos budistas de Bardo.
Quando não entramos em contato com nosso lado sombrio, estas forças se manifestam em nossa vida em forma de diferentes doenças. Mas ao integrarmos estas forças em nossa consciência de maneira amorosa e com compreensão, nos convertemos em seres que se autoaceitam e aceitam aos demais, e somos capazes de transformar estas energias sombrias em forças criativas.

"Quando não é visto como um mero trabalho manual, o preparo de uma thangka pode ser em si mesmo parte de um ritual religioso e da prática espiritual."(1)

Rascunho by Tiffani H. Gyatso
Como representação de uma divindade, as formas da thangka seguem regras pré-estabelecidas que não podem ser alteradas pela expressão artística individual, por isso, é necessário grande dedicação e muito tempo de treino para se atingir o grau de pintor de thangkas.


Existem 6 temas gerais para a pintura de thangkas:

  1. Seres iluminados: Budas, Bodhisattvas e gurus.
  2. Yidams: representações pessoais do mentor espiritual.
  3. Dharmapalas: guardiões da doutrina e do local da prática.
  4. Ilustrações da doutrina: representações simbólicas de temas budistas. Ex.: roda da vida.
  5. Mandalas: representação simbólica de forças cósmicas.
  6. Yantras: um modelo geométrico representando uma divindade de forma abstrata.
De acordo com a literatura védica, o Universo é uma expressão da consciência pura, que primeiro se manifesta como um som e depois assume uma forma. Por isso, as formas representadas em mandalas, em yantras e nas thangkas em geral, possuem uma força primordial que pode nos proporcionar uma vivência espiritual rica e trazer mais sabedoria para nossa vidas.


Buda by Tiffani H. Gyatso

Em Setembro teremos um workshop com a artista de Thangka, Tiffani H. Gyatso, que estudou por 3 anos na escola Norbulingka em Dharamsala na Índia, onde ataulamente vive S.S. Dalai Lama. Confira na página de palestras as datas e outras informações.

Referências:
1. Dudka, Nick. (2005). A prática da meditação tibetana: imagens que estimulam a compaixão, a descoberta e a sabedoria. Ed. Pensamento, São Paulo.
2. Shrestha, Romio. (2006). Galeria Celestial. Ed. Taschen, Alemanha.

domingo, 17 de julho de 2011

Normose: a patologia da normalidade

Normose é um conceito novo, trazido por alguns autores da Psicologia Transpessoal, que tem ganhado espaço nos meios terapêuticos. É um conceito que lida com a idéia do que é considerado "ser normal" numa determinada sociedade ou grupo e do quanto este comportamento causa sofrimento ou não.
Todos nós queremos e precisamos estar inseridos num grupo social e todo grupo tem suas regras, que são o resultado de um 'acordo' entre os integrantes desse grupo. Porém, algumas destas regras podem gerar atitudes que causam profundo sofrimento no outro ou mesmo em quem as pratica.
Vejamos o exemplo do hábito de fumar. Durante muito tempo foi considerado normal fumar - e até mesmo símbolo de status entre nossa sociedade. Hoje em dia, fumar é visto com censura e todos conhecem bem as pressões atuais contra os fumantes. Os fumantes são até vistos como 'fracos'... Mas o quê de fato mudou ? Fumar sempre fez mal à saúde...
Outro hábito 'normal' que também gera um grau de sofrimento considerável é a bebedeira do final de semana - ir para uma balada e não beber é completamente fora do normal...
Então, quando pensamos nestas atitudes comuns à todos nós, começamos a perceber que a normose é muito mais difundida em nossa sociedade do que parece. Nas palavras de Pierre Weil, no livro Normose, podemos ler que:

"A normose pode ser definida como um conjunto de normas, conceitos, valores, estereótipos, hábitos de pensar ou de agir, que são aprovados por consenso ou pela maioria de uma determinada sociedade e que provocam sofrimento, doença e morte."

Ainda nas palavras de Pierre,

"Há uma crença bastante enraizada segundo a qual tudo o que a maioria das pessoas sente, acredita ou faz, deve ser considerado normal."

Existem inúmeras formas de normose e todos sofremos dela em maior ou menor grau - temos que ter um carro bacana, um emprego bacana, uma casa bacana, diversão no final de semana, roupas novas, uma mulher maravilhosa ou um homem bem sucedido... e por aí vai.
O conceito de normose esbarra na busca pela felicidade - ter ou ser ? A necessidade de aceitação, reconhecimento e acolhimento muitas vezes faz com que o desejo pessoal seja sacrificado e então nos rendemos ao padrão, à normose.
Quantas vezes não ouvimos pessoas próximas dizerem que queriam largar tudo e mudar de vida ?
O que este cansaço nos diz ?
Mas o que gostaria de chamar à atenção é a normose dos hábitos e atitudes que ferem o outro, ferem entes queridos, ferem ao próprio normótico.
Jean-Yves Leloup, outro autor do livro supracitado, nos lembra que "estar bem adaptado a uma sociedade doente não é sinal de saúde".

Alguns tipos de normose que devemos refletir sobre são:
A normose da fofoca;
A normose da estética;
A normose do sucesso;
A normose do consumismo;
A normose da alimentação prazeirosa;
A normose da internet;

E a lista pode continuar...

"A característica comum a todas as formas de normose é seu caráter automático e inconsciente."
(Jean-Yves Leloup)

Assim, como curar a nomose ?

Uma coisa precisa ficar bem clara: gostar de boa comida, tomar um bebida numa festa ou jantar, vestir-se com prazer e muitas outras atitudes não são normóticas em si. O problema está na motivação interna e nos objetivos que são esperados destas ações.
Como foi dito acima, a necessidade de ser aceito, de ser igual, é um dos maiores motivadores de ações normóticas. E junto com esta necessidade caminha o medo de sermos autênticos... e sermos rejeitados.
De novo, vemos que o autoconhecimento e a autoaceitação são ferramentas essenciais para a cura da normose.
No momento em que somos verdadeiros, não somos normóticos...
E a reflexão que fica é :

Ousar ir além ou se conformar ?


Referência:
WEIL, P; LELOUP, JY; CREMA, R. (2003) Normose, a patologia da normalidade. Ed. Verus.


Também podemos ler sobre normose no livro de Abraham Maslow "Toward a Psychology of Being". Ed. John Wiley & Sons, 1999.

sábado, 25 de junho de 2011

Buscando a Felicidade Genuína

Nestes tempos acelerados, a busca da felicidade virou mais um item na lista dos afazeres...
Pequenos momentos de autoindulgência são facilmente confundidos com a felicidade genuína:

"Precisamos" daquele momento na frente da TV;
"Precisamos" daquela balada com os amigos;
"Precisamos" daquela comida deliciosa;
"Precisamos" daquelas férias maravilhosas;
E por aí vai...

Mas o que é afinal este estado que tanto buscamos ?
Em primeiro lugar, é importante reconhecer que momentos agradáveis não são felicidade. Alegria é um sentimento agradável, mas de rápida duração; e podemos nos viciar nestes momentos alegres, acreditando que, se temos muitos momentos alegres, somos felizes.
Segundo o monge budista Matthieu Ricard, uma autoridade internacional sobre o tema, a felicidade genuína é a prática do bem-estar.

"... é o desapego momentâneo de conflitos interiores. A pessoa fica em harmonia com o mundo e consigo mesma."

Matthieu Ricard é um francês que, após uma carreira acadêmica de sucesso, resolveu largar tudo e se dedicar à vida monástica no Nepal. Ele foi considerado pela mídia popular o "homem mais feliz do mundo" e escreveu diversos livros.
Em seu livro Felicidade, ele nos alerta que precisamos perceber que a felicidade é acima de tudo, o amor pela vida e o prazer de viver. Para reencontar este prazer, precisamos rever nossos valores, nossas crenças e nossa visão de mundo.
Quando condicionamos nosso bem-estar e nossa felicidade a eventos externos, estamos na verdade nos tornando extremamente frágeis. Se para estar bem precisamos dormir X horas, chegar no trabalho e encontrar tudo da maneira Y, conseguir ter um tempo pra se divertir à noite, e assim por diante, fica muito fácil perdemos nossa felicidade.
Mas ao desenvolvermos um desapego de condições externas, nos tornamos livres... e felizes.
Como ??? O primeiro passo é o autoconhecimento. Se você não se conhece, como vai saber o que realmente é importante pra você ?
Por isso, uma revisão nos valores e crenças pessoais é um começo fundamental.
Perceber por onde vagueia nossa mente também é de extrema importânica. Quando estamos preocupados com acontecimentos passados, problemas do cotidiano, dúvidas sobre o futuro, não estamos felizes. Existe uma diferença sutil entre preocupar-se e buscar soluções através da reflexão.
Lembrar do passado pode ser bom, não só por nos trazer lembranças de momentos felizes, mas também por nos permitir refletir sobre experiências desagradáveis e aprender com elas.
E pensar no futuro também é importante: estabelecer objetivos, descobrir qual caminho queremos seguir, planejar estratégias, sonhar...
E é claro que pensar em soluções para os problemas cotidianos é vital.
Mas quando exageramos nestes pensamentos, inflando-os com nossos medos, dúvidas e fantasias, deixamos de encontrar soluções e passamos a criar novos problemas.
Desenvolver uma mente tranquila é outro ingrediente indispensável para obtermos a felicidade genuína.

"A atitude contemplativa [...] consiste em elevar-nos por alguns instantes acima do redemoinho de pensamentos e olhar com calma para dentro, para o fundo de nós mesmos, como se olhássemos para uma paisagem interior, no intuito de descobrir aquilo que encarna nossas aspirações mais profundas."

Assim, o autoconhecimento, a reflexão e a pausa meditativa são as ferramentas que dispomos para alcançar a felicidade e uma vida de bem-estar. E o melhor de tudo, é que estas atividades dependem apenas de nós !

Referências:

Ricard, Matthieu. (2007). Felicidade, a prática do bem-estar. Ed. Palas Atenas.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Curso de Meditação

Sábado, dia 16 de Julho
Horário: 15hs às 18hs.

Este curso tem como objetivo informar um pouco da base filosófica por trás da meditação, trazendo um contexto não religioso para a prática.
Serão abordados também as recentes pesquisas científicas em diversas áreas da saúde que estão utilizando a meditação como forma auxiliar de tratamento para diversos problemas como estresse, ansiedade, hipertensão, dores em geral e outros.
Neste curso introdutório, será abordada a técnica da Atenção Plena na Respiração.
Inclui um CD para auxíliar a prática em casa.

É necessário inscrição prévia.
Tire suas dúvidas e faça sua inscrição aqui.

Facilitadora: Katya Sibele Stübing
Valor: R$ 120,00.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Sobre a Meditação

A meditação é uma técnica milenar, que tem suas raízes nas filosofias orientais, como o Budismo, o Taoísmo e o Hinduísmo; mas também pode ser encontrada nas formas místicas do Cristianismo e do Judaísmo.
O uso da meditação está cada vez mais popular e mais secularizado, isto é, separado da prática religiosa. Dentro do meio acadêmico e em diversas áreas da saúde, muitas pesquisas mostram os diversos benefícios da meditação, sem importar tanto qual técnica se utiliza.

A meditação pode ser compreendida como uma técnica de treinamento mental com o objetivo de diminuir ou cessar o fluxo caótico de pensamentos e aumentar a capacidade de concentração, ajudando o praticante a encontrar um estado de bem estar e autoregulação, com significante aumento da espiritualidade e dos aspectos positivos tanto psicológicos como os de saúde.

A principal técnica utilizada nos meios acadêmicos e de saúde  tem sido a Mindfulness, que pode ser traduzida como Atenção Plena.
Utilizando um objeto neutro para focar a mente - como a respiração, por exemplo - somos convidados a manter o foco da atenção pelo maior tempo possível, sem distração. No início, parece uma tarefa impossível, mas com o tempo e a prática, percebe-se que realmente começamos a ter um controle maior sobre nossos pensamentos.

Esta capacidade de auto-observação traz inúmeros benefícios; mas é importante observar que manter a mente focada por tempo indeterminado não é o objetivo final da meditação. Segundo a filosofia budista, este é apenas o requisito inicial para que possamos realmente nos aventurar na natureza da mente e compreendê-la... E compreender nossa mente é, em última instância, conhecer a nós mesmos.
Por isso, a meditação se torna rica quando utilizada na busca de contato com a dimensão espiritual e transcendente do indivíduo, com o objetivo final de nos ajudar a alcançar o estado máximo do potencial humano, conhecido na literatura oriental como “iluminação” e na ocidental como “autorealização”.

Alguns benefícios:
  • Melhora a capacidade de concentração, autocontrole e auto-observação; 
  • Diminui sentimentos ansiosos, agressivos e depressivos; 
  • Promove sentimentos positivos: compreensão, ética, paciência, sentido para vida, desapego, etc.
  • Promove alterações positivas na personalidade; 
  • Diminui a percepção de dores em geral; 
  • Ajuda a controlar taxas hormonais; 
  • Promove melhora no sistema imunológico;

Mas fique atento, pois a meditação não é...
  • Simplesmente esvaziar a mente; 
  • Uma prática para obtenção de poderes sobrenaturais; 
  • Apenas um hábito; 
  • Apenas um relaxamento; 
  • Algo para se envaidecer;

No processo meditativo – que é o processo de conhecermos a natureza da mente - devemos seguir um caminho, como em qualquer outra atividade que desejemos nos tornar hábeis. É preciso dedicação...



Referências:

FORTNEY, L.; TAYLOR, M. (2010). Meditation in Medical Practice: a Review of the Evidence and Practice. Primary Care Clin Office Pract, No 37: 81-89

HANKEY, A. (2006). Studies of Advanced Stages of Meditation in the Tibetan Buddhist and Vedic Traditions. I: A Comparison of General Changes. e-Cam 2006; 3(4) 513-521

KRISTELLER J. L.; HALLETT, C. B. (1999). An Exploratory Study of a Meditation-based intervention for Binge Eating Disorder. Journal of Health Psychology, No 4: 357

MARS, T. S.; ABBEY, H. (2010). Mindfulness Meditation Practice as a Healthcare Intervention: a Sistematic Review. International Journal of Osteopathic Medicine, No 13:56-66

OSIS, K.; BOKERT, E.; CARLSON, M. L.(1973). Dimensions of the Meditative Experience. Journal of Transpersonal Psychology, No 5(2): 109-135

REAVLEY, N.; Pallant, J. F. (2009). Development of a Scale to Asses Meditation Experience. Personality and Individual Differences, 47: 547-552

RUBIA, K. (2009). The Neurobiology of Meditation an its Clinical effectiveness in Psychiatric Disorders. Biological Psychology, 82: 1-11

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Psicologia Transpessoal e Imaginação Ativa

A Psicologia Transpessoal é uma nova força da Psicologia, tendo seu início consolidado no final da década de 1960 por Abraham Maslow, James Fadiman, Antony Sutich, entre outros. Ela se apóia no aspecto saudável do Ser Humano e busca resgatar valores e crenças que auxiliem o indivíduo a encontrar seu equilíbrio natural.
Maslow


Depois da corrente Humanista de Psicologia, a Abordagem Transpessoal tem um conceito de Ser Humano amplo, como um ser que possui dimensões físicas, sociais, emocionais, racionais e espirituais. Trabalha com um novo conceito de consciência, amparada nas novas descobertas das neurociências, reconhecendo que transitamos por diversos estados de consciência ao longo do dia e da vida.

Mudando o foco, novas percepções aparecem.
Estados de consciência podem ser compreendidos como um conjunto de funções fisiológicas, emocionais e mentais que alteram nossa percepção da realidade, dando um "colorido" diferente ao que vivemos. Por exemplo, quando estamos bêbados ou quando estamos muito felizes, nossa percepção do que acontece muda radicalmente - estas mudanças de interpretação são fontes de diversos conflitos emocionais.



Reconhecendo a importância da dimensão espiritual, a Psicologia Transpessoal também trabalha a busca de sentido e significado, fortalecendo a motivação de viver e de estabelecer novos valores.

Uma técnica utilizada pela Abordagem Transpessoal para trabalhar os conteúdos psíquicos-emocionais é a Imaginação Ativa. Esta é uma técnica criada pelo psicólogo Carl Jung, que tem como finalidade trabalhar conteúdos psíquicos pouco conscientes ou totalmente inconscientes. Através de diversas técnicas lúdicas, como desenhar, dançar, imaginar e mesmo escrever, é possível trabalharmos questões emocionais profundas e chegarmos a um bom entendimento de processos internos. Todas as terapias que utilizam técnicas artísticas podem ser reconhecidas como tendo suas raízes no trabalho de Jung.

No livro de Chodorow (1997), é feita uma coletânea dos escritos de Jung, com trechos onde ele cita e exemplifica o uso e as técnicas de Imaginação Ativa. É interessante notar que antes de chegar ao termo definitivo, Jung utilizou diversos nomes como: função transcendente, fantasia ativa, técnica de diferenciação, exercício de introspecção, entre outros. Podemos perceber ao longo da leitura deste livro, que o método de Jung é "baseado na função curativa natural da imaginação".

Para a Abordagem Transpessoal, a técnica de Jung é uma excelente ferramenta, por auxiliar no processo de mundaça de ponto de vista e no tornar consciente aspectos psicológicos e emocionais que estavam indisponíveis no nível racional. Ao se utilizar a Imaginação Ativa, é possível acessar o inconsciente, resgatando uma visão ampla da questão e possibilitando uma visão equilibrada, fazendo nascer um novo conceito e uma nova leitura dos problemas e da própria vida.


Referências:

Chodorow, Joan. (1997). Jung on Active Imagination. Princeton University Press, New Jersey.

Maslow, A. (1968/1999). Toward a Psichology of Being. Ed. John Wiley & Sons.

Maslow, A. (1969). The Farther Reaches of Human Nature. The Journal of Transpersonal Psychology, spring 1969. 


Saldanha, Vera. (2008). Psicologia Transpessoal: Abordagem Integrativa – um conhecimento emergente em psicologia da consciência. Ijuí, RS: Ed. Unijuí.

Sutich, A. (1969a). Some Considerations Regarding Transpersonal Psychology. The Journal of Transpersonal Psychology, spring 1969.

Sutich, A. (1969b). The American Transpersonal Association. The Journal of Transpersonal Psychology, fall 1969.

Tabone, Márcia. (2005). A Psicologia Transpessoal. São Paulo: Ed. Cultrix.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Ampliando a Consciência e a Física

Einstein nos trouxe a perspectiva de olhar a vida sob vários ângulos...
Hoje, quando falamos "Tudo é relativo" pouco nos lembramos dele... Mas muitos dos nossos hábitos e crenças têm origem nas descobertas da Física, quer percebamos isso ou não.
Por isso tanto alvoroço em torno da Física Quântica. Mas devemos ficar atentos para a banalização de um conhecimento com impacto filosófico tão profundo em nossas vidas. É importante ler e estudar materiais de autores reconhecidos e sérios.
O Princípio da Incerteza, por exemplo, estabelecido por Werner Heisenberg em 1927, nos fala de nossa limitação em conhecer os fatos e podemos tirar daí que sempre devemos deixar espaço em nossas mentes e atitudes para novas informações. Junto com a Teoria da Relatividade de Einstein, temos duas grandes visões de mundo da Física que nos ajudam grandemente a lidar com as questões da vida diária de forma mais saudável.
Outra descoberta da Física Moderna que traz um pedido de revisão radical em nossa forma de ver o mundo é a que resultou do experimento realizado pelo físico francês Alain Aspect e colegas, em 1981. Ele conseguiu mostrar uma influência à distância instantânea ocorrendo entre partículas elementares - a comprovação de uma forma de comunicação que foge à lei de que nada viaja mais rápido que a luz.
Para explicar tal fenômeno, foi levantada a hipótese de uma dimensão não-local, por onde as informações são transmitidas instantâneamente, não importando a distância ! Este experimento já foi replicado por colegas e inclusive aplicado em humanos, para estudar a transmissão de informação entre cérebros.
Se paramos pra pensar nas implicações disso, devemos nos perguntar - o mundo físico é a única realidade que existe ? O que este experimento nos indica é que não...
Outro experimento famoso e muito perturbador é o conhecido experimento da dupla-fenda. Além da constatação feita por Louis de Broglie de que as partículas atômicas possuem uma natureza dual onda/partícula, fica apontada a evidência de que o observador (seja humano ou não) influencia o resultado do experimento. Esta teoria do observador é a reconhecida pela Escola de Copenhagem - a oficial da Física  - e fala de como influenciamos o mundo material com nossas mentes e nosso pensamento.
Então, conhecer um pouco sobre a Física Moderna pode nos ajudar, e muito, a lidar com nossas vidas e as dificuldades que enfrentamos diariamente...
Isso aparece bem claro quando falamos dos processos cerebrais que ocorrem constantemente em nosso corpo durante nosso pensamento. A transmissão de informação no cérebro ocorre através da transmissão de sinais elétricos que são realizados através de estruturas que estão sujeitas às leis da Física Quântica. Num artigo muito esclarecedor de 2005, o psiquiatra Jeffrey Schwartz, o neurocientista Mario Beauregard e o físico Henry Stapp mostram a influência do processo de escolha nas conexões entre neurônios e que portanto afetam nosso pensamento.  Eles cunharam o complicado nome de Neuroplasticidade Auto Direcionada para tal efeito. Em termos mais simples, isto significa que nossas escolhas tem efeito físico real na forma do nosso cérebro e portanto afetam toda nossa estrutura fisiológica.
Regularmente, o Núcleo SaberSer oferece uma palestra que clareia estas informações e estimula a reflexão.
Além disso, no curso Ampliando a Consciência, são estudas as teorias científicas que mais trouxeram e trazem impactos para nossas vidas, junto com o aprendizado prático de técnicas meditativas que nos ajudam a incorporar tais conhecimentos.

Até lá !

Katya S.


Referências:


ASPECT, Alain; GRANGIER, P.; ROGER, G. (1981). Experimental Tests of Realistic Local Theories via Bell’s Theorem. Physical Review Letters Vol 47, No 7: 460-463.
BOHM, David. (1980). Wholeness and the implicate order. London: Routledge.
BROGLIE, Louis de (1929). The Wave Nature of the Electron. Nobel Lectures, December 1929 (pdf from Google).
CAPRA, F. (1975). O Tao da Física. São Paulo: Ed. Cultrix.
HAWKING, S. ; MLODINOW, L. (2005). Uma Nova História do Tempo. Rio de Janeiro: Ediouro.
GOSWAMI, Amit. (1995). The Self-Aware Universe. New York: Tarcher.
GREENE, B. R. (1999). O Universo Elegante: supercordas, dimensões ocultas e a busca da teoria definitiva. Companhia das Letras, SP.
REYNAUD, S. (2008). A Natureza do Fóton. Edição Especial da Scientific American Brasil, No 29: 6-11. São Paulo: Ed. Duetto.
SCHWARTZ, Jeffrey M.; STAPP, Henry P.; BEAUREGARD, Mario. (2005). Quantum Physics in Neuroscience and Psychology: a neurophysical model of mid-brain interaction. Phil. Trans. Of the Royal Society B, No 360: 1309-1327.
STAPP, H. (2009). The Mind Is Not What The Brain Does. Academic Imprint 2010, Universidade da Califórnia. saa49.ucsf.edu/psa/themind.wmv


 


segunda-feira, 25 de abril de 2011

Meditações Diárias


PUREZA É LUZ

Esquecemos completamente a pureza.
Fizemos concessões na nossa higiene em nome da pressa.
Permitimos que montanhas e praias fossem poluídas em nome do mercado.
Permitimos que nossas mentes fossem maculadas por entretenimento frívolo.
A guerra é considerada uma opção viável,
O princípio é considerado uma qualidade negociável,
Nossas crianças são vitimadas por estranhos
E a obscenidade é considerada um tema válido para a arte.

Onde está a pureza na nossa vida ?

Casamo-nos. Divorciamo-nos.
Não importa quem machucamos na vida.
Achamos a lealdade uma virtude encantadora, mas sem sentido.
Sacrificamos valores da nossa juventude para comprar a glória de nossos anos tardios.

Onde está a pureza na nossa vida ?

Pensamos que, se triunfarmos em um momento dourado, isso eliminará toda a sujeira que nos causa preocupação.
Sustentamos a grandeza dos atletas que querem ter esse momento de triunfo.
Louvamos o herói do campo de batalha como o redentor de nossa culpa diante do horror da guerra. Incentivamos loucos que pensam que disparar uma arma, caçar animais, cometer suicídio ou espancar prostitutas na rua é seu meio de purificação.

Onde está a pureza na nossa vida ?

Busque a pureza.
Pode não ser fácil.
Pode não ser comum.
Mas é o único estado ao nosso alcance que está livre de concessões.


(Trecho do livro "Tao - Meditações Diárias" da Ed. Martins Fontes)